A CONVERGÊNCIA ENTRE A MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E ACESSIBILIDADE POR MEIO DA OBRA KOE NO KATACHI
Igor Mendes - 8 jun. 2026
1 INTRODUÇÃO
A existência de processos que almejam a marginalização dos mais diversos grupos sociais, é algo inegável, embora seus objetivos sejam discutíveis, como a dominação destes grupos, etnias e povos. Um dos grupos mais afetados pelos processos de exclusão social são as pessoas com deficiência¹, para este estudo em específico as pessoas com deficiência auditiva. A acessibilidade, por sua vez, pode ser definida no sentido lato como o rompimento total ou parcial de uma barreira que impeça o exercício de um direito, restringido por meio da deficiência, preferencialmente de modo autônomo.
Um dos principais processos de marginalização envolvendo a pessoa com deficiência auditiva ocorre por meio da descomunicação. As línguas de sinais, por sua vez, representam um importante avanço no que diz respeito à integração de pessoas com deficiência auditiva na sociedade. De origem francesa, a primeira língua de sinais em formato pedagógico foi desenvolvida por Charles Michel de L’Epée na década de 1750 (Strobel, 2009). Sua criação resultou na primeira escola pública para surdos do mundo em 1791, o Institut National des Jeunes Sourds de Paris (2025).
O modelo de ensino francês, de tamanha relevância, influiu na criação de outros sistemas de ensino voltados para pessoas com deficiência auditiva pelo globo, inclusive no Brasil. O Instituto Nacional da Educação dos Surdos (INES), que durante seu processo de fundação (1856) ficou conhecido como Collégio Nacional para Surdos-Mudos ou Instituto dos Surdos-Mudos, teve interferência direta de Ernest Huet, ex-aluno do Institut National des Jeunes Sourds de Paris (Instituto Nacional da Educação dos Surdos, 2021; Museu de Astronomia e Ciências Afins, 2025).
O Censo Demográfico 2010: Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010), revelou a presença de mais de 2,3 milhões de pessoas com deficiência auditiva no país (possuem grande dificuldade de ouvir ou não ouvem nada); e a Pesquisa nacional de saúde 2019: ciclos de vida, também do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021), apontando que apenas 22,4% das pessoas com deficiência auditiva do país conhecem a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), definida como segunda língua oficial do Brasil por meio da lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002 (Brasil, 2002). Ao delimitar mais o grupo, levando em consideração apenas as pessoas com perda de audição total, o número se eleva para 61,3%.
O longa animado Koe no Katachi (聲の形), selecionado aqui enquanto objeto de estudo, é mais conhecido no Brasil como A Silent Voice (título em inglês, lançado no ocidente), ou A Voz do Silêncio, publicado no segundo semestre de 2016. O qual um dos pontos focais é a história de Shōko Nishimiya (西宮 硝子), uma garota com deficiência auditiva que se comunica por meio da Nihon Shuwa (日本手話) Língua de Sinais Japonesa. Apesar da ausência de levantamentos oficiais sobre o número de pessoas com deficiência que a utilizam. Estudos apontam que esse número pode variar entre 35.000 a 57.000, o que corresponderia em torno de 10 a 17% da população com deficiência auditiva existente no Japão na última década (Yano, Matsuoka, 2018).
Em meio a este contexto, o governo japonês, utilizou a obra, a representação da pessoa surda e sua vivência ali retratada, como elemento fundamental para a realização de ações almejando a integração de pessoas com deficiência auditiva na sociedade japonesa. Essas ações possuem características demarcadas na teoria da informação — mediação, e podem servir de exemplo para a criação de novas movimentações pelo mundo visando a inclusão social de pessoas com deficiência. Pensando nisso, foi elaborado o seguinte problema de pesquisa: como as ações de cunho mediador (no senso informacional), realizadas em auxílio da obra Koe no Katachi pode influir no âmbito da acessibilidade?
Para responder essa questão, foi traçado enquanto objetivo geral: a análise de ações realizadas pelo governo japonês, tendo como aparato a obra Koe no Katachi, para a integração de pessoas com deficiência auditiva na sociedade. Visto isso, foi necessário, a identificação dessas ações; a identificação e caracterização dos elementos presentes no conceito de mediação da informação, assim como a checagem da presença ou ausência desses elementos nas ações realizadas; a identificação e caracterização das tipologias de acessibilidade presentes na literatura especializada e a associação entre ação e tipologia; e a produção de argumentos que correlacionam as práticas envolvendo o universo da acessibilidade e a mediação da informação.
O estudo se justifica, no ponto de vista científico e sociológico, visto a conjuntura atual de discriminação envolvendo as pessoas com deficiência em geral na sociedade, fazendo com que produções que almejam a integração desses indivíduos sejam cada vez mais necessárias. Para efeito de comparação destaca-se a atrocidade humanitária realizada pela Agencia Nacional de Discapacidad (ANDIS), órgão do atual governo argentino, que por da Resolução 187/2025, passou a classificar, pessoas com deficiência intelectual enquanto ‘retardados mentais’, e algumas subcategorias como ‘idiotas’ e ‘imbecis’² (Argentina, 2025).
2 ENSAIO SOBRE A VOZ E O SILÊNCIO
A deficiência auditiva foi caracteriza por mais de duas décadas no Brasil como a “perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas freqüências de 500HZ, 1.000HZ, 2.000Hz e 3.000Hz” (Brasil, 1999, Art. 4º, II; 2004, Art. 5º, § 1º, I, b). Hoje:
Considera-se deficiência auditiva a limitação de longo prazo da audição, unilateral total ou bilateral parcial ou total, a qual, em interação com uma ou mais barreiras, obstrui a participação plena e efetiva da pessoa na sociedade, em igualdade de condições com as demais pessoas. Para o cumprimento do disposto no caput deste artigo, adotar-se-á, como valor referencial da limitação auditiva, a média aritmética de 41 dB (quarenta e um decibéis) ou mais aferida por audiograma nas frequências de 500 Hz (quinhentos hertz), 1.000 Hz (mil hertz), 2.000 Hz (dois mil hertz) e 3.000 Hz (três mil hertz) (Brasil, 2023, Art. 1º, § 1°).
A nova medida legal define a deficiência auditiva em três situações: a ausência da percepção de estímulo sonoro total em um dos ouvidos; a ausência da percepção de estímulo sonoro total nos dois ouvidos; e a ausência da percepção de estímulo sonoro em não totalidade em ambos os ouvidos. Em linhas gerais, a pessoa que para ouvir precisa de um estímulo sonoro produzido a partir de 41 decibéis, é considerada uma pessoa com deficiência auditiva.
Para Lloyd e Kaplan (1978), responsáveis pela criação da classificação (para caracterizar o grau das perdas auditivas) mais conhecida, a audição que necessita de 41 decibéis poderia ser considerada como perda auditiva moderada. Em efeito de comparação, uma pessoa adulta, sem nenhum agravamento de perda auditiva, consegue ouvir sem nenhuma dificuldade o som elevado a 25 decibéis (na classificação dos autores supracitados).
A segregação social de pessoas com deficiência auditiva (mas não apenas dessas), por sua vez, não é uma novidade. Ocorre de modo histórico, e sempre de forma desumanizadora, onde a dignidade lhe é restringida, “a infeliz criança foi imediatamente sufocada, teve a garganta cortada e foi jogada às ondas. Era um crime contra a nação não sacrificar à pátria um ser de quem ela nada tinha a esperar [...]” (Berthier, 1840, p. 7, tradução própria³).
O trecho acima narra uma prática comum vivenciada na antiguidade, como a espartana, onde uma criança com deficiência tinha seu direito à vida renegado em prol do bem-estar social. A prática, embora entendida aqui enquanto inumana, pode ocorrer em determinados casos até o dia de hoje, inclusive no Brasil em algumas etnias indígenas (Camacho, 2019). Porém, a negação da vida, não ocorre apenas de modo literal, a vida quando repleta de isolamento e segregação, para uma espécie biologicamente e socialmente coletiva (afinal dependemos de outros constantemente para nos fortalecer e existir), é algo quase tão / senão até pior que a própria morte:
Em décadas passadas, existiam famílias ouvintes que “escondiam” os filhos surdos pela “vergonha” de ter concebido uma criança fora dos padrões considerados normais; e por isso os surdos quase não saíam de casa ou sempre ficavam acompanhados dos pais (Monteiro, 2006, p. 6).
Um dos principais e mais recentes movimentos que fomentaram a marginalização de pessoas com deficiência auditiva ocorreu em Milão, mais precisamente em 1880, durante a II Conferenza internazionale sull'educazione dei sordomuti (II Conferência Internacional sobre Educação de Surdos e Mudos). O retrocesso na proibição (debatida e delimitada) no evento em questão, no que concerne ao ensino de línguas sinais, e o fomento ao método de ensino denominado Oralismo Puro, por meio da alegação de que as pessoas surdas não aprendiam a ouvir e falar por serem ‘preguiçosas’ (Strobel, 2009), embora pareça distante quando comparada as mazelas do tempo, está intimamente próxima às práticas citadas por Berthier (1840) de negação a dignidade a vida humana.
Hoje a principal barreira vivenciada pela pessoa com deficiência auditiva, é a comunicacional, e pode ser observada nas mais diversas esferas do conhecimento, de relações e de atuação, como na saúde (Oliveira; Miranda; Silva, 2023), nas interações familiares e escolares (Souza; Melo, 2021), no universo virtual (Gala, 2025). Ocorrendo inclusive no âmbito informacional e biblioteconômico. Em estudos realizados anteriormente, é possível notar a ausência esmagadora da Língua Brasileira de Sinais nas grades dos cursos de biblioteconomia do Brasil, onde apenas 21,7% dos cursos de graduação na área, responsáveis legalmente por formar o profissional bibliotecário (Brasil, 1998), tratam o ensino da Libras como obrigatório (Mendes, 2023; Silva, 2025), ou seja, indiretamente, entende-se que o atendimento a uma pessoa surda em uma biblioteca (por parte do bibliotecário) é algo opcional.
O filme Koe no Katachi (2017), por sua vez, tem como um dos principais temas, a descomunicação existente no cotidiano de pessoas com deficiência auditiva. O elemento comunicacional é encontrado com frequência na bibliografia especializada (Sá; Campos; Silva, 2007; Sassaki, 2009; Fundação Dorina Nowill para Cegos, 2020), enquanto uma das tipologias de acessibilidade, as quais totalizam sete:
a) atitudinal, tradicionalmente relacionada ao comportamento pessoal, social ou profissional perante a pessoa com deficiência. O uso de definições acuradas cientificamente como “pessoas com deficiência”, contrárias a expressões que possam ser ofensivas como “deficiente”, que reduzem o indivíduo na deficiência, ou “portador de deficiência”, pois induz a concepção da possibilidade de não portar ou até mesmo de transmitir a deficiência; a compreensão da necessidade de utilização de cão-guia em ambientes que não permitem a entrada de animais.
b) arquitetônica, referida a quebra de barreiras existentes, espaços físicos (em espaços abertos ou fechados). A utilização e adaptação de rampas, corrimãos, elevadores, banheiros adaptados, piso tátil para bengala, plataformas etc. Como consta na Norma Brasileira 9050 sobre acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos (Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2015);
c) metodológica, também denominada enquanto pedagógica, almeja propiciar a acessibilidade por meio do ensino. Sendo originalmente discutida, no âmbito das práticas pedagógicas, utilização de recursos acessíveis como o Braille (no caso de pessoas cegas) e na formação do profissional (professor) especializado;
d) instrumental, a acessibilidade por meio de utensílios, instrumentos e ferramentas. No caso da pessoa com deficiência auditiva, os principais exemplos seriam os softwares para acesso eletrônico, como o intérprete virtual para a língua brasileira de sinais, o VLibras (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, 2025) e os aparelhos auditivos no âmbito analógico;
e) programática, diz respeito à legislação, normas e regimentos que respeitam e buscam garantir os direitos e necessidades das pessoas com deficiência. No caso do Brasil podemos citar o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Brasil, 2015); Lei n° 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS); a Norma Brasileira 9050 supracitada; Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico (EMAG), que compila 45 propostas recomendações para acessibilidade web (Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, 2014; Silva et al., 2024);
f) natural, visa romper as barreiras existentes no mundo naturalmente. A quebra dessas barreiras estão tradicionalmente ligadas a não utilização de vegetação com espinhos em espaços públicos, árvores com galhos baixos, ou com raízes que possam romper locais de transação; travessia em rios; o clima e a possibilidade de alojamento nas proximidades de um ambiente informacional;
g) comunicacional, se refere aos processos que almejam garantir a devida comunicação no que concerne à pessoa com deficiência. No caso da pessoa com deficiência auditiva, o melhor exemplo (no Brasil), é a língua brasileira de sinais. Porém, podemos destacar a legendagem; assim como a devida formatação de documentos digitais para a garantia da funcionalidade de um tradutor de línguas de sinais virtual.
Em sinopse, o filme Koe no Katachi é uma animação japonesa publicada nos cinemas em 2016, dirigida por Naoko Yamada (山田 尚子) e baseada no mangá (História em quadrinhos na língua japonesa) de Yoshitoki Ōima (大今 良時). Classificado como drama emocional que aborda temas como a descomunicação entre pessoas e pessoas com deficiência auditiva, assim como as consequências deste processo. A história gira em torno de Shōya Ishida (石田 将也), um jovem que, quando criança, inflige tormento a sua colega de classe, Shōko Nishimiya (西宮 硝子), uma garota surda. A obra representa os efeitos resultantes de processos discriminatórios e preconceituosos destinados a pessoas com deficiência auditiva com ênfase às formas distintas de comunicação.
3 MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO
Tendo seu primeiro conceito datado em 2006, demarcado em discussões pertinentes ao grupo de pesquisa “Interfaces: informação e conhecimento” da Universidade Estadual de Londrina (López Caldera et al., 2024), a teoria da informação — mediação, é difundida atualmente na área da ciência da informação como:
[…] toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais – direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural, individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais (Almeida Júnior, 2015, p. 25).
Como podemos notar, a objetivação fim de toda ação realizada em um processo informacional, no âmbito da mediação, é a apropriação da informação, o denominado constructo, provindo das relações entre indivíduo e o mundo (Almeida Júnior, 2020). Neste sentido, o caráter de amplitude existente na teoria, possui a potencialidade de utilização nos mais diversos setores da sociedade e nas mais variadas áreas, subáreas e temáticas de pesquisa.
Além disso, destaca-se que a ação mediadora possui uma característica específica, seu contraponto a momentaneidade:
[…] não é um momento, mas um processo. Ela envolve não só o usuário, o bibliotecário, como também o “produtor” da informação (ou da protoinformação, como prefiro chamar), os suportes com os quais o bibliotecário lida, o equipamento informacional (físico ou não), o momento em que todo o processo acontece (não um momento determinado) e a informação (Almeida Júnior, 2013).
Embora no exemplo supracitado, temos enquanto foco, a relação biblioteconômica, envolvendo o profissional bibliotecário, usuário e produtor (como os editores, por exemplo), destaca-se que a característica não se limita a essa relação específica. O que nos é interessante, se deve aos fatos da mediação da informação, não ocorrer de modo isolado. A função da apropriação, para a mediação da informação, é gerar novas necessidades, novos conflitos, novas ideias, novas relações.
Esse fator é importante, pois o objeto aqui estudado, a obra cinematográfica (Koe no Katachi, 2017), pode ser compreendido enquanto o resultado de uma apropriação, uma construção. Por ser proveniente de uma história em quadrinhos homônima (Ōima, 2013), sua concepção parte de um processo onde foi apropriado e utilizado para a elaboração de um novo objeto, capaz assim de produzir novas relações futuramente, quando lido por determinado indivíduo. Destaca-se que a leitura aqui é compreendida “[...] em seu conceito lato, ou seja, abordando os quatro grandes segmentos da multimídia, quais sejam: o texto escrito, a imagem fixa, a imagem em movimento e o som” (Almeida Júnior, 2025, p. 17).
Neste sentido, a mediação da informação fornece subsídios teóricos, para a análise de possíveis elementos — envolvendo a acessibilidade — presentes na animação japonesa. Assim como, permite a interpretação de possíveis novos conflitos, relações e ideias provindas desses elementos.
4 METODOLOGIA
Em relação à natureza, esta pesquisa pode ser enquadrada como básica, ou seja, almejou a construção e fortalecimento teórico de discussões referentes à acessibilidade na área da ciência da informação, mais especificamente por meio da mediação da informação. No que concerne a abordagem, pode ser classificada como qualitativa, pois buscou compreender as motivações, atitudes e pressupostos (Haguette, 1995) envolvendo o universo da integração de pessoas com deficiência na sociedade.
Por observar, registrar e descrever fatos provenientes de uma realidade, ações desenvolvidas tendo como principal objeto o longa-metragem Koe no Katachi, e seus possíveis impactos na sociedade, é definida como descritiva no que diz respeito a sua tipologia. Em relação ao método, foi selecionado o método comparativo, o qual por sua vez, permite o aprofundamento de duas ou mais realidades (ações com a utilização da obra audiovisual Koe no Katachi), e a investigação dos objetos por meio do realce de suas semelhanças e diferenças (Collier, 1992; Gil, 2008).
Em relação à técnica de coleta, foi efetivada por meio da análise documental. A documentação em senso cultural é o corpo do trabalho intelectual e imaginativo, onde os mais diversos registros do pensamento e experiências humanas ganham forma (Williams, 2001). Os documentos constituem-se em consequência de uma ação, mais especificamente sua corporificação, uma prova (Duranti, 1994). Além disso, são:
[...] uma fonte poderosa de informação, cujos conteúdos podem oferecer evidências que fundamentem afirmações e declarações do pesquisador. Não são apenas uma fonte de informação contextualizada, mas surgem num determinado contexto e fornecem informações sobre esse mesmo contexto (Lüdke; André, 1986, p. 39).
Segundo Briet (1951, p. 7, tradução própria⁴), um documento pode possuir amplas camadas de interpretação, pois se configuram como “qualquer evidência concreta ou simbólica, preservada ou registrada, com o propósito de representar, reconstruir ou provar um fenômeno físico ou intelectual”. Amplificando assim, a utilização de diversas fontes para a realização da análise.
No que concerne ao processo de seleção dos documentos, essa decorreu pelo crivo da pertinência (Alvares, 2018), ou seja, os documentos precisam se adaptar aos objetivos previstos para estudo (representar ações realizadas tendo como objeto o filme supracitado). Neste sentido, foram selecionados duas ações desenvolvidas no âmbito governamental japonês: uma campanha realizada pelo Monbu-kagakushō (文部科学省), o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão, e um evento proposto pela Kanagawa-ken (神奈川県), a Prefeitura de Kanagawa.
5 RESULTADOS
A primeira ação selecionada como amostra para o estudo, envolvendo o longa-metragem, e que objetivou a integração de pessoas com deficiência auditiva no Japão foi desenvolvida Monbu-kagakushō, que durante o período de lançamento do filme (no ano de 2016), ao lado de uma das organizações responsáveis pela publicação e distribuição da obra, a Shōchiku Kabushiki gaisha (松竹株式会社), produziram e distribuíram cartazes em escolas públicas de todo o Japão com o intuito de, promover a comunicação e compreensão de pessoas com deficiência, a prevenção bullying e de suicídio no país (Monbu-kagakushō, 2016a; 2016b). Junto a isso, o Ministério também desenvolveu um sítio digital governamental direcionado a campanha, e pode ser acessado por meio do link: https://www.mext.go.jp/koenokatachi/.
Figura 1 — Pôster da campanha
Fonte: Monbu-kagakushō (2016b).
Descrição do conteúdo visual presente na figura 1: Na esquerda a protagonista Shōko Nishimiya, com cabelos rosados e compridos, trajando uniforme escolar tradicional japonês. A garota olha em direção ao protagonista Shoya Ishida (à direita), de cabelos curtos e escuros, camisa social, terno e gravata — enquanto o garoto busca se comunicar por meio da fala representada por um balão vazio. Em senso de escrita literária encontram-se: a frase transcrita “tenha a coragem de falar com o coração” em japonês (tradução não literal), além de algumas informações como o organizador, o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão, a data de lançamento da obra, nove dezessete de setembro, e o nome do filme “Koe no Katachi”.
O que se pode notar em relação à ação desenvolvida, primeiro em senso geral, é a prevenção de suicídio, um tema debatido no filme, e amplamente problemático no Japão, cujos índices são altíssimos. A preocupação em relação à prevenção e interpretação da obra como um potencializador de suicídios no que concerne à pessoa com deficiência auditiva é de suma importância, especialmente nesse contexto de ampla ocorrência.
No que concerne ao universo da acessibilidade — foco original deste estudo, é possível associar a ação mediadora em primeira instância à modalidade da acessibilidade atitudinal. A campanha visa construir o pensamento anti capacitista por meio dos canais de comunicação instituídos pelo Ministério, enquanto hábeis (cartazes no instrumento informacional — escola, centrado em estudantes, visto a retratação da vivência de uma pessoa surda durante o período escolar; e o sítio digital pelo instrumento informacional — web, esse sem concentração específica, direcionado ao público geral, buscando atingir o maior número de pessoas possíveis).
A lógica que permeia a acessibilidade atitudinal, ou seja, o rompimento de uma ou mais barreiras que impeçam o exercício de um ou mais direitos restringidos pela deficiência, por meio do comportamento, é um aspecto fundamental para a integração de pessoas com deficiência na sociedade. A construção do senso crítico em estudantes ainda jovens, no que concerne às mazelas causadas pelo isolamento de uma criança surda na escola e pela intimidação sistemática, pode fomentar no desenvolvimento a longo prazo de uma sociedade apta a valorizar a humanidade do próximo.
A segunda ação, essa idealizada pela Kanagawa-ken (2016a; 2016b), mais especificamente por meio do Kanagawa ken hoken fukushi-kyoku fukushi-bu chiiki fukushi-ka (神奈川県保健福祉局福祉部地域福祉課), o Departamento de Saúde e Bem-Estar da prefeitura em questão, pode ser classificada como um evento. Esse em questão, contou com a exibição antecipada do filme, além de aulas de Nihon Shuwa para a população presente durante o período de acontecimento.
A prefeitura de Kanagawa já possui histórico na realização de eventos similares, ou seja, com cunho integrativo de pessoas com deficiência auditiva na região, inclusive com apoio da obra base, a história em quadrinhos homônima que inspirou o filme utilizado neste estudo em questão (Kanagawa-ken, 2015). Este ponto vale destaque, pois medidas de integração, são raramente efetivadas por meio de uma única ação, ou seja, o projeto de integração de pessoas com deficiência só ganha forma quando praticado com frequência. Pois as barreiras vivenciadas no dia a dia destas pessoas são reforçadas todos os dias por meio de processos de marginalização.
No que concerne as tipologias de acessibilidade, podemos enquadrar a ação mediadora, em âmbito atitudinal, como a ação realizada pelo Monbu-kagakushō, pois o aprendizado, ou melhor, a introdução ao aprendizado de uma língua de sinais, permite a comunicação direta entre pessoas sem deficiência e com deficiência auditiva. Todavia, o destaque da ação se faz na tipologia metodológica, ou seja, a pedagógica, mais especificamente em terceiros.
Tradicionalmente a acessibilidade é pensada tento enquanto foco a pessoa com deficiência, ou o profissional qualificado em acessibilidade (um estudante cego e um professor especializado no ensino em Braille), porém a acessibilidade pensada para além dessa esfera, possui potencialidade pragmática de mudança social. A incompreensão das especificidades da pessoa com deficiência e de sua vivência por parte da população geral é uma das maiores barreiras presentes no universo da acessibilidade.
Neste sentido, a instrução em línguas de sinais para pessoas sem deficiência, tendo como aparato a obra artística aqui estudada (mas não apenas essa), pode fornecer subsídios para a integração social de pessoas com deficiência, como o contato com elementos provenientes da cultura de comunidades de pessoas com deficiência auditiva, pois evidencia as barreiras experimentadas cotidianamente por essas pessoas, e seu possível efeito, a empatia, do estar no lugar do outro, do vivenciar aquilo que por ele não foi sentido até então.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em relação ao cumprimento dos objetivos, pode-se dizer que foi alcançado em partes. A análise de ações realizadas pelo governo japonês, tendo como aparato a obra Koe no Katachi, para a integração de pessoas com deficiência auditiva na sociedade, de fato pode ser atingido. Ações de cunho mediador utilizando a obra foram identificadas (a campanha para a prevenção de isolamento social, bullying e suicido de pessoas com deficiência auditiva do Monbu-kagakushō e o evento de exibição prévia do filme com acompanhamento de aulas da Nihon Shuwa realizado pela Kanagawa-ken); a identificação e caracterização das tipologias de acessibilidade presentes na literatura especializada (atitudinal, comunicacional, arquitetônica, natural, metodologia, programática e instrumental) e a associação entre ação e tipologia (atitudinal para a campanha e metodológica/atitudinal para o evento) também foi atingido; a produção de argumentos que correlacionam as práticas envolvendo o universo da acessibilidade e a mediação da informação, pode ser destacada pela amplitude presente no conceito de mediação, objeto fim — a apropriação da informação por meio da construção de ideias, relações e conflitos, e pela possibilidade de propostas no sentido de replicação dessas ações nos mais diversos territórios e ambientes, como em bibliotecas e escolas brasileiras.
Porém, as ações, mantém como hiperfoco a pessoa sem deficiência. De modo pragmático, o investimento em ações voltadas para a acessibilidade, mesmo que essa não seja especificamente direcionada para a pessoa com deficiência, ainda, sim, é capaz de produzir resultados no âmbito da integração de pessoas com deficiência. Todavia, expecta-se nessas modalidades de ações a presença da pessoa com deficiência, e isso não foi identificado. Portanto, os objetivos foram atingidos, mas não do modo tradicionalmente esperado.
Como limitação de pesquisa, aponta-se a impossibilidade de analisar a influência palpável da obra no aprendizado ou busca do aprendizado em línguas de sinais pelo mundo, o que seria uma excelente fonte de evidência para determinar de modo pragmático o papel da obra no âmbito da acessibilidade. Neste sentido, como estudos futuros, é válida a investigação e levantamentos detalhados sobre a população utente em Nihon Shuwa, pré e pós-lançamento da animação, assim sua motivação pelo aprendizado na língua. Podendo ser aplicado em outras localidades, com a língua de sinais ali regente, como o Brasil e a Língua Brasileira de Sinais.
NOTAS
“Uma deficiência é qualquer perda ou anormalidade da estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica. Representa a exteriorização de um estado patológico e, em princípio, reflete distúrbios no nível do órgão” (Fundação Dorina Nowill para Cegos, 2025).
“Según el CI los grupos son: 0-30 (idiota): no atravesó la etapa glósica, no lee ni escribe, no conoce el dinero, no controla esfínteres, no atiende sus necesidades básicas, no pude subsistir solo; 30-50 (imbécil): no lee ni escribe, atiende sus necesidades elementales, pueden realizar tareas rudimentarias; 50-60 (débil mental profundo): solo firma, tiene vocabulario simple, no maneja el dinero, puede realizar tareas rudimentarias; 60-70 (débil mental moderado): lee, escribe, realiza operaciones simples, conoce el dinero, puede realizar trabajos de escasa exigencia intelectual; 70-90 (débil mental leve): cursó primaria y a veces secundaria, puede realizar tareas de mayor envergadura. Fronterizos los que tienen CI cercan al normal” (Argentina, 2025, p. 37).
Texto no idioma original / francês: Le malheureux enfant était aussitôt étouffé, égorgé, précipité dans les flots. Il y avait crime de lèse-nation à ne pas immoler à la patrie un être dont elle n’avait rien à attendre ni rien à espérer.
Texto no idioma original / francês: “tout indice concret ou symbolique, conservé ou enregistré, aux fins de représenter, de reconstituer ou de prouver un phénomène ou physique ou intellectuel”.
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