MINHA PROFESSORA É UM COMETA
Igor Mendes - 12 set. 2026
Para os tarados e depravados de plantão, destaca-se o aviso prévio de que, nestas linhas, a palavra 'cometa' não se refere a nada de cunho sexual.
Sei que vocês existem. Sei que estão em todas as partes. E que estão sempre em busca desse tipo de coisa a todo momento.
Então, se for um desses, pode abandonar a leitura neste exato ponto, se já não fez isso durante a negativa apontada.
Essa história é sobre um cometa, ou uma mulher, talvez uma mulher em forma de cometa, talvez um cometa em forma de mulher.
Talvez tudo isso, talvez nada disso. Talvez eu não saiba muito bem. Talvez use muito a palavra 'talvez'.
Essa é a história da professora que me influenciou a querer me tornar um professor, ou talvez um cometa.
Por questões óbvias, não vou expor a pessoa em questão. Primeiro porque não sei se ela gostaria disso e segundo, pois ela pode nem se lembrar de mim, e vou ser o idiota sentimental que fica recordando sozinho de como uma pessoa que nem se lembra de mim mudou minha vida.
Durante meu primeiro ano do curso de Biblioteconomia (2018, se não estiver enganado), fui obrigado (sim, obrigado, pois odiava) a fazer uma disciplina denominada inglês instrumental (talvez tivesse outro nome; os nomes das disciplinas são sempre complicados e indicam uma coisa e, na prática, são outra; enfim, era aula de inglês).
Extremamente revoltado com a ausência da Língua Brasileira de Sinais (na época, minha temática de estudo planejada para a monografia) na grade do curso de Biblioteconomia e a obrigatoriedade de uma disciplina de uma língua estrangeira na mesma, direcionei todo meu ódio interno na primeira aula à primeira criatura viva com o mínimo indício de autoridade parada próxima a mim, a professora, ou um cometa (já deixamos claro a dificuldade de estabelecer isso).
Essa pessoa em questão exercia algo diferente sobre mim; eu a amava enquanto professora e simultaneamente odiava o que ela lecionava. Não odiava as aulas, mas a disciplina.
Passei anos sem pensar no assunto, mas essa noite me recordei enquanto trabalhava arduamente (talvez nem tanto assim) na tese de doutorado. Tradicionalmente, acabamos nos apegando aos professores que lecionam disciplinas que temos interesse, normalmente são desses que nos aproximamos, são esses que nos inspiram.
Então, por que nos aproximamos? Talvez fosse algo explicitado no item 3 do edital para docentes, dizendo que os professores precisam se aproximar mais dos alunos mais idiotas, pois precisam de mais atenção profissional.
Talvez ela tenha se visto em mim, talvez eu tenha me visto nela. Talvez a pinta que ela tinha no canto superior direito do lábio me fizesse lembrar de uma amiga da infância. Talvez tenha sido coisa da minha cabeça. Talvez ela tenha me dito algo que me impactou e que nem mesmo me recordo, ou o contrário.
Talvez não tenha uma resposta. E acho que não sou capaz de descrever a mudança que ela causou em mim. Mas gostaria de tentar, então aqui vai:
Era como olhar um cometa
A apenas um braço de distância
Daqueles que só aparecem a cada cem anos
Ele vai embora
E tudo fica escuro
Mas você passa a nunca mais ver o céu da mesma forma.
Em partes, isso é um pouco triste; em partes, parece uma receita com duas doses de whisky e meia de poesia.
Um cometa é algo lindo e, em teoria, é quente, pois sempre é representado pegando fogo (pelo menos nos desenhos animados).
Mas não sabemos, nunca nos aproximamos de cometas. Pode existir um fogo gélido?
Se um cometa for frio ao toque de uma mão, deixaria de ser algo incrível?
Não sei, apenas sei que, ao ouvir as primeiras palavras provindas daqueles lábios, soube que as carregaria comigo até o dia em que meu coração parasse (muito provavelmente por culpa da nicotina).
Ela me perguntou o que eu gostaria de ser, eu olhei para o rosto dela e pensei em um cometa.